07 - Identidade


Jonas Badermann de Lemos destaca três aspectos de sua formação, que certamente são significativos para muitas pessoas do Centro Cultural 25 de Julho:


1. O cultivo da cultura e da arte como parte integrante da vida;

2. O papel da identificação étnica cultural na vida de uma pessoa;

3. O papel das atividades do Centro Cultural 25 de Julho na vida das pessoas que com esta entidade se identificam e que a integram.

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Trazemos a história deste fundador do Grupo de Danças Folclóricas Alemãs em sua segunda versão em 1980 e também integrante da Diretoria do “25”, nas suas palavras. Este relato foi concedido à Angélica Boff, por ocasião da pesquisa histórica realizada para os 70 anos do Centro Cultural. A história de cada pessoa é única, mas certamente muitos leitores se identificarão – pelo menos em parte – com esta história:

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Jonas – “Quando eu era criança, meu irmão e eu tínhamos a obrigação de casa em aprender um instrumento musical e uma língua estrangeira. Passávamos bastante tempo na casa dos avós maternos, que cuidavam de nós. E avós, você sabe, são muito acolhedores. A casa da vó era como um apoio para nossa família, e uma referência para nós. E lá se falava alemão. Então, com 6 ou 7 anos eu já sabia que queria falar alemão.”

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“Ali pelos 12 anos, eu sempre ganhava, de presente de Natal, duas semanas na Casa da Juventude em Gramado para fazer curso de alemão. Para lá ia gente de todo o Brasil, que os pais mandavam para aprender alemão. Lá tínhamos contato não só com a língua, mas com toda a cultura alemã. Tínhamos contato com música, teatro, dança, entre outras coisas.”


A Casa da Juventude de Gramado era, na verdade, o Centro Cultural 25 de Julho daquela cidade. Pelo fato de sua sede ter sido cedida pela administração do Município, em contrapartida, a Prefeitura,

exigiu que o nome da entidade fizesse referência ao Município.

As imagens a seguir são da inauguração da Casa da Juventude de Gramado, em 1966.


“Posteriormente, quando vim a Porto Alegre, encontrei ambiente desta natureza no “25 de Julho. Isso foi muito bacana! Entrei em 1978, com 18 anos, no Coral Misto e, em seguida, o grande objetivo era a viagem de 1980 para Alemanha. Esta viagem também foi muito significativa. Lá ficamos hospedados em casas de família, e foi uma identificação muito grande, que era aquilo que meus avós passaram.”


Esta história você encontra em detalhes no livro “Expresso 25 – 50 Anos: Uma história do canto coral no Brasil” – Angélica Boff ,à venda no Centro Cultural 25 de Julho de Porto Alegre


“Eu percebia que a gente enfrentava melhor situações do dia a dia, quando o lastro cultural era sólido. Aí percebemos que através das danças folclóricas poderíamos promover uma regeneração da cultura alemã em nós mesmos. À época, uma certa vergonha de ser alemão era muito mais forte e presente. Creio que isso vinha da guerra também...”

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Na verdade, esta vergonha contra a qual Jonas e amigos lutavam é muito mais ancestral do que as consequências da II Guerra Mundial. Ela abarcava também o colono – imigrante e descendente de imigrante – que ficou isolado e desprezado por tantas décadas no Brasil, vivendo à margem de qualquer integração social. E mais, remete àquele imigrante que já era o pobre excluído da Alemanha e que, por este motivo, aventurou-se ao mar e a uma terra desconhecida – o Brasil – na qual ele não tinha nenhuma garantia de futuro. Nesta linha de pensamento, Jonas prossegue:


“Eu mesmo passei por isso, quantas vezes ensaiava falar alemão com alguém e me desculpava dizendo: ‘Ah, mas eu não falo o Hochdeutsch, eu falo o Hunsrückisch. Então, achávamos que este complexo poderia ser “tratado” através das danças. Retomando a cultura através da vontade de dançar, vinha também a necessidade e valorização de aprender a língua, pois o material (livros e músicas que ensinavam as danças alemãs) vinha em alemão. Na verdade entendíamos que retomar também a música, o teatro, e até a gastronomia cotidiana, esses hábitos todos tomavam outro caráter, eram valorizados e valorizavam, assim, nossa cultura e vivências.”



Grupo de Dança Infantil na década de 60

A Ala Moça do Centro Cultural 25 de Julho, na década de 1960. Dela surgiram, em 1964, o Coral Misto e o Grupo de Danças Alemãs, (dos quais fizeram parte Jonas Badermann e Susana Fröhlich, atuais Presidente e Vice-Presidente do “25”)


Este depoimento é da mais profunda importância. Ele demonstra com clareza a força da ancestralidade em nossas vidas. Impossível seguirmos adiante com vergonha de nossas origens, ou sem sabermos quem somos. Desta forma nossas vidas serão desastrosas, sofridas, recalcadas.

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Se você é “jovem”, nascido muito depois, nas décadas de 1970, 80 ou até 90, ou então, nascido e criado em alguma capital do Brasil, talvez você não tenha vivenciado estas situações de perto. Contudo tenha certeza que estes registros estão em sua mente subconsciente e movem a sua vida. Em algum momento, inesperadamente, você se defronta com um medo ou vergonha de se mostrar, com falta de confiança em si próprio diante da sociedade ou, adversamente, talvez seja agressivo, tenha raivas dentro de si... pode ter certeza que todos estes sentimentos estão vinculados também a questões ancestrais mal resolvidas. Conhecer estas histórias poderá ajudá-lo.


É fundamental que se conheçam nossas origens culturais através de nossos pais e avós, mas também aquelas influências mais remotas, centenárias e milenares. Porque são elas que nos constituem. De posse deste autoconhecimento, será possível reavaliar com mais consciência cada feito, cada pensamento, cada sentimento vivido e, então, nos desprendermos e modificarmos o que não faz mais sentido hoje. Esta é a razão de se conhecer tradições e história: tomar posse e assumir o que se é para, então sim, poder mudar o que deve ser mudado. E mudar! Não repetir sem saber o sentido do que foi vivido.


Outra associada muito ativa no “25”, Susana Fröhlich – presidente hoje e também em 2001, quando dos festejos dos 50 anos do Centro Cultural – depõe no mesmo sentido, dizendo que:


“O Hunsrückisch é um dialeto cuja prática se perdeu na Alemanha. Hoje há alemães que vêm para o Sul do Brasil a fim de estudar este dialeto. Hoje eu vejo nessas pessoas um orgulho de ser de origem alemã, do que são, do que fazem e dos valores de seus antepassados.

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Mas antigamente, o que me intrigava é que sempre via nossas pessoas se sentirem constrangidas, com certa vergonha... ‘Eu falo engraçado? Eu falo errado?’, quando vinham pessoas da Alemanha, que falam o Hochdeutsch (alemão gramatical), isto sempre me incomodou.

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Só posteriormente, viajando à Alemanha com o Expresso 25 e também à região do Hunsrück, vim a descobrir que os integrantes do grupo que falavam o dialeto daqui, naquela região se depararam com um alemão muito semelhante ao nosso daqui. Então, este alemão existe! Sendo que algumas palavras aqui se preservam ainda hoje, e lá não existem mais. Porque lá a língua se integrou mais com o alemão gramatical. E aqui no Sul do Brasil, permaneceu o mesmo dialeto Hunsrückisch, integrando-se com o português.



A 1ª tournée do Jovem Coral Misto 25 de Julho ao Heimat faz sensação no “25”, constando na capa do Boletim Informativo.






















E considero que estamos nos aproximando dos 200 anos da imigração alemã. Este ano são 197 anos. Me caiu no entendimento o porquê de existir esta emoção tão grande. Existe uma herança desde os antepassados, através das músicas, relatos, cantos... herança de uma Heimat que foi deixada. E esta Heimat prevaleceu como um afeto indelével no coração de toda gente hoje. É uma Alemanha que não existe mais. Mas essas pessoas se sentem alemãs.



Apresentação do Coral Misto 25 de Julho na Alemanha

Em viagem à Alemanha, em 1980, o Coral Misto (hoje Expresso 25) confraterniza com o público após apresentação.

Sobre o Hunsrückisch, além de merecer ser tombado como patrimônio Histórico Imaterial pelo governo do Estado, ou Nacional, é também um potencial importante para nossos jovens que carregam esta herança e/ou aprenderam esta língua em casa, pois ele é um passo para o alemão gramatical. É fácil para essas pessoas assimilarem o aprendizado de uma nova língua, o que pode abrir portas e oportunidades para estas pessoas.” (Depoimento por ocasião do evento Lieder – Duas canções de Schubert, do Centro Cultural 25 de Julho no vídeo: